Você já se perguntou por que as livrarias que vendem livros usados são chamadas de sebos? A origem desse nome é curiosa e cheia de história, e ajuda a entender a relação afetiva que muita gente tem com livros que já passaram por outras mãos.
Antes de existirem copiadoras ou qualquer forma moderna de reprodução, estudantes da Universidade de Coimbra, em Portugal, precisavam encontrar meios de estudar e compartilhar conteúdo. Eles faziam resumos das matérias à mão e os reproduziam em litografias conhecidas como sebentas. Esses materiais circulavam entre colegas e, com o tempo, o termo passou a se associar a textos usados, compartilhados e reaproveitados. A linguagem popular fez o resto, e o nome acabou se aproximando do universo dos livros de segunda mão.
Os dicionários ajudam a entender como essas palavras evoluíram ao longo do tempo. O Dicionário Houaiss registra que alfarrábio é um livro antigo ou velho, muitas vezes considerado sem importância, mas que pode ganhar valor justamente por sua antiguidade e raridade. Alfarrabista é quem compra, vende ou coleciona esse tipo de obra. A própria língua foi incorporando expressões bem-humoradas ligadas ao mundo dos livros usados, até que “sebo” se consolidou como o nome popular das livrarias dedicadas a eles, e “sebista” como quem trabalha nesse universo.
(foto Livraria Traça 2019)
Mas a verdade é que o significado de um sebo vai muito além da etimologia. Um sebo é um lugar de reencontros. Livros que já tiveram donos carregam marcas do tempo, anotações, dedicatórias, páginas dobradas, cheiros e histórias invisíveis. Cada exemplar chega com uma trajetória e segue para outra, como se fosse um objeto vivo em constante circulação.
Há quem diga que livros usados guardam uma espécie de memória afetiva. O escritor argentino Jorge Luis Borges, apaixonado por bibliotecas e edições antigas, escreveu que “sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”. Em um sebo, essa sensação é quase palpável, porque ali os livros não são apenas novos objetos à venda, mas testemunhos de leitura, estudo e vida.
Umberto Eco também falava sobre o fascínio de livros que atravessam o tempo e continuam encontrando leitores. Para quem frequenta sebos, parte da experiência está justamente na descoberta inesperada, no título raro, no exemplar fora de catálogo, no livro que parece ter esperado por alguém específico.
Assim, o nome “sebo” nasceu de uma mistura de tradição, cultura e criatividade popular, mas seu significado se expandiu com o tempo. Hoje, quando alguém diz que vai ao sebo, não está apenas procurando um livro mais barato. Está entrando em um espaço de memória, circulação de ideias e continuidade da leitura.
(foto Livraria Exlibris futura Livraria Traça 2004/2006)