Esses dias recebi uma mensagem de uma colega de trabalho que me fez parar por alguns minutos, coisa rara na correria:
“Oi, já tinha te dado o feedback do texto sobre o dia das bibliotecas, mas só hoje pude ler o texto sobre a Maya Angelou. Amei!!! É um texto que exalta sem ser derramado, que contextualiza e informa sem ser panfletário e, mais importante, convida a conhecer a literatura dela, sem ser apelativo!
Não sei se cheguei a te mostrar, mas aí vai o poema que fiz para o Dia da Consciência Negra/2025:
Negro canto
Com seus olhos d'água Conceição vê
o pássaro cantar na gaiola,
Maya sabe o porquê
Da cadeia Angela Angelou
Seu canto forte e potente
deu voz a nós,
libertou mentes, do preconceito
Pois apesar do sentimento
que Ana Maria nominou
sabemos que a cor não é defeito
E Sousa não pôde ver
apesar de seus Broquéis
assumirmos novos papéis,
mas seu coração intuía.
De longe, de antes da história
de muito além da memória,
vem o canto que me guia
Vertendo sofrimento em arte,
fazendo da dor alegria
Dona Ivone já longe da Cruz
lá do alto vem lembrar
que também a boca negra
se abre num branco sorriso
Pra mudança acontecer
e fazer o mundo girar
cantar então é preciso!
— Maira.”
(na foto: Conceição Evaristo)
Fiquei realmente impressionado com a força do poema. Maira não só escreve, ela sente, e isso aparece em cada verso. A imagem do pássaro na gaiola puxa a memória de Maya Angelou, mas o mais bonito é como ela amplia esse canto e traz junto Conceição Evaristo, Angela Davis, Cruz e Sousa e Dona Ivone Lara. Não soa como referência distante, soa como encontro.
Não é um poema preso a uma data, não é algo que só faz sentido em um momento específico. É vivo, necessário, desses que a gente lê e fica um tempo em silêncio depois, deixando cada verso assentar.
Tem uma sensibilidade ali que não dá para forçar. Quando ela escreve sobre transformar dor em arte e fazer da dor alegria, não parece discurso, parece verdade. E talvez o mais bonito seja isso. Ainda existem textos que atravessam a gente de verdade, que não ficam só na leitura, mas continuam ecoando.
Poemas assim merecem voz, espaço e circulação. Não por obrigação, mas porque tocam, porque dizem, porque ficam. E o da Maira fica.
“Minha voz ainda ecoa.”