“Hoje cê pode me esquecer. É carnaval no Brasil. Sou eu que mando na p**** da vibe. Só vou te ligar quando chegar abril.”
Já dizia Marina Sena. E é isso mesmo, é carnaval no Brasil: feriado, praia, pausa do CLT, rua cheia e aquela sensação de que o ano só começa depois.
E como falar de carnaval, feriado, praia e folia sem lembrar do carnavalesco Evandro de Castro Lima, que nasceu na Bahia em 1920 e faleceu no Rio de Janeiro em fevereiro de 1985, poucos dias depois da terça-feira gorda daquele ano. Viveu o carnaval até o fim, do jeito mais intenso possível.
Evandro foi integrante do elenco de dança do Teatro Colón, em Buenos Aires, e deixou a Argentina na época do peronismo. Deixando Buenos Aires estabeleceu-se aqui na nossa cidade de Porto Alegre, ele e inúmeros outros artistas. E na capital gaúcha Evandro ficou por um período promovendo shows no American Boite, ali na Rua Voluntários da Pátria. Tinha formação em Direito, mas o caminho dele era mesmo a arte e o carnaval.
Sua iniciação nos concursos de fantasia aconteceu em 1956, na cidade de Salvador. E em 1959 estreou sua primeira fantasia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, representando o deus Netuno, com uma capa que retratava o fundo do mar, cheia de algas, anêmonas, peixes e estrelas-do-mar. Era algo grandioso, pensado nos mínimos detalhes.
Depois vieram outras criações marcantes, como “Escravo de Ébano”, empunhando um candelabro e o corno da abundância, e também “Cavaleiro do Cisne”, em tons de azul, com escudo e espada, gracioso, lindo, delicado e cheio de esplendor. Evandro tinha esse talento de transformar fantasia em história, em símbolo, em presença.
Poderia escrever muito mais sobre a trajetória dele, sobre inspirações, sobre o carnaval de 1980 e tanta coisa que ele deixou marcada. Mas já são 18h e o carnaval chegou, preciso sair e começar a folia. Fica aqui só o registro e a lembrança, inclusive no texto de Betty Milan, do livro Isso é o País, publicado na Folha de S. Paulo em 27/02/1985 como “A última apoteose de Evandro Castro Lima”. Porque o carnaval passa, mas certas figuras continuam brilhando.
"Morreu, morreu de Carnaval. Vi-o pela última vez na Marquês de Sapucaí, fantasia negra. Vi-o tirar o chapéu e estranhei o fato de que não suportasse o peso dele. Isso foi na terça-feira, no sábado ele faleceu.
Noel Rosa não queria nem choro nem vela, Evandro queria plumas no caixão, deu a vida pela festa de Momo e desejava que o próprio rei o levasse daqui para outra, o enterro fosse cortejo de plumas e paetês.
Em 1959, estreou a primeira fantasia no Municipal do Rio de Janeiro, foi Netuno e fez ver na capa o fundo maravilhoso do mar —as algas, as anêmonas, os peixes e as estrelas tantas. Depois, escravo de ébano, sustentou um candelabro e o corno da abundância, simbolizando a nossa utopia. Tendo sido negro, metamorfoseou-se no Cavaleiro do Cisne; azul, empunhou o escudo e a espada, trouxe para o Brasil uma era que não tivemos. No ano seguinte, rumou para Lisboa, onde fez bordar o manto de Dom Pedro II, manto de folhas de carvalho, só miçangas, requifado. Imperador do Brasil e, posteriormente, da França, pois ousou ser Napoleão, pesquisando no Musée des Invalides a fantasia. Teve impérios e os reinados de Salomão e Dom Sebastião, suas galeras e brasões.
Amou-se nos grandes do Ocidente e do Oriente, oferecendo-nos Tutankamon, que do sarcófago se levantou para o Carnaval de salão. Inspirou-se na cultura antiga, mas ainda no que chamou de epopeia farroupilha e fez-se um gaúcho estilizado.
Imperadores, reis e faraós para vestir o camaleão, papas e califas. O carnavalesco foi Leão I e o califa de Bagdá, penas de garça no turbante, raríssimas. Mensageiro do Eldorado, em 1980, na Império Serrano, majestosamente solar, evocando as visões do paraíso, a travessia do mar e o Descobrimento. Desde 1973, foi ininterruptamente primeiro lugar no Concurso de Fantasias do Rio de Janeiro.
Sempre quis conhecê-lo e, em 1980, o entrevistei. Ouvi-o, então, lamentar a inexistência de um Museu do Carnaval que expusesse as indumentárias. Soube que uma fantasia doada ao Teatro Municipal desapareceu na poeira; outras ele vendeu na Europa. O que resta é patrimônio nacional. Salva-se ou vão entregar às traças, esquecer que Evandro Castro Lima foi um sonho nosso, assumiu e rasgou a fantasia?
Evandro era um médium do Brasil, que ressurgia nas suas várias aparições. Brasileiramente, ele morreu de Carnaval."
(foto Evandro de Castro Lima foi vencedor do Concurso de Fantasias do Hotel Nacional, 1974, categoria Luxo Masculino. Fantasia usada: "Poseidon, Deus do Mar")