Elogio ao Sargento

TEXTO RESGATADO!  ⚠ CONTÉM SPOILERS! ⚠


Espantoso: a leitura de Memórias de um Sargento de Milícias, que eu esperava ser arrastada e pouco envolvente, revelou-se fluida e divertida. Suas personagens são carismáticas e memoráveis. O grande mérito do romance está em seu estilo, marcado pelo humor, pelo dinamismo e por um retrato da sociedade brasileira que, em muitos aspectos, ainda soa atual.

Confesso que comecei a leitura com certo preconceito. Sempre achei que muitos clássicos da literatura brasileira exigiam um esforço maior do leitor do que efetivamente recompensavam. Talvez isso explique por que tantos deles permanecem conhecidos sobretudo no contexto acadêmico, enquanto poucos alcançaram projeção internacional comparável à de autores como Dostoiévski, Flaubert, Dickens, Edgar Allan Poe ou Goethe. Essa é, naturalmente, uma impressão pessoal, mas foi com ela que iniciei Memórias de um Sargento de Milícias. Felizmente, eu estava completamente enganado.

O próprio título havia sido suficiente para me manter afastado da obra por muito tempo. Imaginei que encontraria uma narrativa centrada na vida militar, repleta de formalidades e pouco interessante. A realidade é justamente o oposto.

Memórias de um sargento de milícias - (Pocket) - Livraria e Papelaria Nobel

O protagonista só se torna sargento de milícias nas últimas páginas do romance. Antes disso, acompanhamos sua infância travessa e sua juventude cheia de peripécias no Rio de Janeiro do período imperial. A história se desenvolve por meio de intrigas, segredos, desencontros, romances e situações cômicas que lembram, em vários momentos, uma boa novela. Ainda assim, nunca perde o ritmo.

O grande trunfo de Manuel Antônio de Almeida está na narrativa. Como observa Francisco Achcar, seu texto possui um dinamismo incomum para a época, aproximando-se da leveza da crônica jornalística. O humor surge naturalmente das situações e da ironia do narrador, tornando a leitura surpreendentemente agradável.

A linguagem, que hoje pode parecer rebuscada, na verdade reproduz de forma bastante fiel o português coloquial da época em que o romance foi escrito, entre 1852 e 1853. É justamente esse tom que confere autenticidade à narrativa.

Escrito durante o Romantismo, Memórias de um Sargento de Milícias incorpora algumas características do movimento, mas sem cair em seus exageros mais conhecidos. As personagens são relativamente simples em sua construção, porém estão longe da idealização típica dos heróis românticos. Seus defeitos, fraquezas e contradições aproximam-nas muito mais de pessoas reais.

"Tratava-se de uma cigana; o Leonardo a vira pouco tempo depois da fuga da Maria, e das cinzas ainda quentes de um amor mal pago nascera outro que também não foi a este respeito melhor aquinhoado; mas o homem era romântico, como se diz hoje, e babão, como se dizia naquele tempo."

Leonardo passa de uma paixão para outra com uma facilidade que dificilmente seria aceita por um herói romântico tradicional, como Werther. Ao mesmo tempo, Manuel Antônio de Almeida observa a sociedade com olhar crítico, mas sem amargura. Sua ironia nunca parece ressentida; ao contrário, serve como fonte constante de humor.

Ao apresentar uma de suas personagens, por exemplo, escreve:

"Ser valentão foi em algum tempo ofício no Rio de Janeiro; havia homens que viviam disso: davam pancada por dinheiro (...) Entre os honestos cidadãos que nisto se ocupavam, havia, na época desta história, um certo Chico-Juca, afamadíssimo e temível."

Mário de Andrade classificou Memórias como uma forma tardia do romance picaresco. Leonardo realmente compartilha várias características do pícaro: é malandro, preguiçoso, oportunista e frequentemente escapa das consequências de seus atos. Ainda assim, não é um personagem perverso. Demonstra afeto, pratica boas ações em alguns momentos e conquista naturalmente a simpatia do leitor.

Seu final feliz, casando-se com seu primeiro amor e alcançando o posto de sargento, pode parecer improvável. No entanto, dentro da lógica do romance, funciona perfeitamente.

Talvez o grande tema da obra seja aquilo que hoje costumamos chamar de "jeitinho brasileiro". Ao longo da narrativa, favores pessoais, relações de amizade e acomodações informais frequentemente prevalecem sobre a aplicação rigorosa das regras. O Compadre, por exemplo, ascende socialmente graças a um ato pouco honesto cometido no passado. Já o major Vidigal, representante da autoridade, demonstra flexibilidade diante de determinadas situações e também possui suas próprias contradições.

Mais do que fazer um julgamento moral, Manuel Antônio de Almeida parece observar esse funcionamento da sociedade com humor e ironia. É justamente esse olhar leve, aliado a uma narrativa extremamente divertida, que faz de Memórias de um Sargento de Milícias uma leitura muito mais moderna do que seu título e sua idade poderiam fazer imaginar.

Por Pirineu

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