A Coleção Brasiliana, que viria a inaugurar uma nova forma de relacionamento com as publicações sobre o Brasil, inicialmente era apenas parte de um projeto muito mais amplo e ambicioso. Para compreender essa ambição, é preciso considerar o contexto histórico em que ela surge.
A década de 1930 começa em um país em profunda transformação. Com a chamada Revolução de 1930, Getúlio Vargas assume o poder, encerrando a República Velha.
Inicia-se, então, um período de intensas mudanças políticas, sociais e econômicas. No campo econômico, destaca-se a substituição de importações em decorrência da crise de 1929, a Grande Depressão. O país abandona a lógica da República do “café com leite” e a hegemonia da monocultura cafeeira, dando início ao processo de industrialização.
No plano político, há a suspensão da Constituição de 1891, a nomeação de interventores para os estados e o governo por decretos, o que contribui para a radicalização que culmina na Revolução Constitucionalista de 1932. Em seguida, a Constituição de 1934 introduz avanços importantes, como o voto secreto, o voto feminino e a criação da Justiça Eleitoral. O período também é marcado pela polarização entre a Aliança Nacional Libertadora (ANL) e a Ação Integralista Brasileira (AIB), que resulta na Intentona Comunista de 1935.
Socialmente, observam-se processos como a urbanização, a expansão do rádio, impulsionada por programas como “A Hora do Brasil”, e a ampliação de direitos trabalhistas, posteriormente consolidados na CLT. Apesar dos avanços, esse período culmina no regime autoritário instaurado em 1937.
A educação foi uma das áreas mais impactadas, marcada por centralização e nacionalização. Em 1930, o governo Vargas cria o Ministério da Educação e Saúde Pública. A reforma conduzida por Francisco Campos em 1931 estrutura o ensino secundário e superior e cria o Conselho Nacional de Educação. Ao mesmo tempo, a educação passa a ser utilizada como instrumento de construção da identidade nacional, com ênfase na disciplina e na formação de professores. Esse movimento se consolida com a Constituição de 1934, que estabelece a educação como direito de todos, garantindo sua gratuidade e obrigatoriedade.
É nesse contexto que Fernando de Azevedo, posteriormente um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, inicia o ambicioso projeto da Biblioteca Pedagógica Brasileira, pela Companhia Editora Nacional. O objetivo era mobilizar o Estado, a imprensa e a sociedade em torno da construção de uma educação pública de qualidade.
A coleção era composta por cinco séries complementares:
- Literatura Infantil, cujo primeiro volume foi Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato;
- Livros Didáticos, voltados a diferentes níveis de ensino;
- Atualidades Pedagógicas, destinadas à formação de professores;
- Iniciação Científica, com obras de áreas como sociologia, psicologia e higiene;
- Coleção Brasiliana, dedicada a apresentar o Brasil aos brasileiros.
Com preços acessíveis e grandes tiragens, a Brasiliana destacava-se por reunir intelectuais consagrados, muitos dos quais publicaram ali suas primeiras edições.
Com o tempo, a Coleção Brasiliana deixou de ser apenas uma série da Biblioteca Pedagógica Brasileira e passou a ocupar posição central, abrangendo áreas como história, sociologia, etnografia, antropologia, geologia e geografia, além de uma rica literatura de viajantes. Em 1941, apenas dez anos após o lançamento do primeiro volume, já haviam sido publicados 200 títulos.

(fotos de exemplares da coleção Brasiliana fonte Traça, 2026)
Fernando de Azevedo dirigiu a coleção até 1956, priorizando a reedição de textos clássicos e autores consagrados. Nesse ano, foi substituído pelo historiador Américo Jacobina Lacombe, que defendia a publicação da produção intelectual contemporânea. Sob sua direção, a coleção seguiu até 1993, totalizando mais de seis décadas de existência, com 415 títulos publicados em 439 volumes, reunindo 275 autores nacionais e estrangeiros.
Embora coleções editoriais existam desde o século XVI, o conceito de “brasiliana” se consolida na década de 1930, impulsionado pelo mercado editorial e por intelectuais como Rubens Borba de Moraes. A historiadora Eliana Regina de Freitas Dutra destaca que a coleção foi responsável por inaugurar a prática do colecionismo editorial no Brasil.
A partir da Coleção Brasiliana, construiu-se uma imagem do Brasil inicialmente formulada por educadores e intelectuais em busca de uma identidade nacional. Com o tempo, esse projeto evoluiu e se consolidou como uma das mais importantes referências para os estudos sobre o país, tanto no Brasil quanto no exterior.
Texto por Maira. Traça 2026.